“Quem consideraria isto prova de insensatez e não de religião?…
Não creias poder aprender do homem o mistério de sua própria fé!”
(Texto extraído da carta abaixo)
Excelentíssimo Diogneto
Vejo que te interessas em aprender a religião dos cristãos e que, muito sábia e cuidadosamente te informaste sobre eles: Qual é esse Deus no qual confiam e como O veneram, para que todos eles desdenhem o mundo, (…) e não considerem os deuses que os gregos reconhecem, nem observem a crença dos judeus; que tipo de amor é esse que eles têm uns para com os outros; (…)
Aprovo este teu desejo e peço a Deus, o qual preside tanto o nosso falar como o nosso ouvir, que me conceda dizer de tal modo que, ao escutar, (…) não se arrependa aquele que falou. Purificado de todos os preconceitos que se amontoam em sua mente; (…) e tornado, pela raiz, homem novo; e estando pronto para escutar, (…) vê não somente com os olhos (…)
(…) Os cristãos, de fato, não se distinguem dos outros homens, nem por sua terra, nem por sua língua ou costumes.
Com efeito, não moram em cidades próprias, nem falam língua estranha, nem têm algum modo especial de viver. Sua doutrina não foi inventada por eles, graças ao talento e a especulação de homens curiosos, nem professam, como outros, algum ensinamento humano. Pelo contrário, vivendo em casas gregas e bárbaras, conforme a sorte de cada um, e adaptando-se aos costumes do lugar quanto à roupa, ao alimento e ao resto, testemunham um modo de vida admirável e, sem dúvida, paradoxal.
Vivem na sua pátria, mas como forasteiros; participam de tudo como cristãos e suportam tudo como estrangeiros. Toda pátria estrangeira é pátria deles, a cada pátria é estrangeira; (… …) estão na carne, mas não vivem segundo a carne; moram na terra, mas têm sua cidadania no céu; obedecem as leis estabelecidas por Deus, leis que ultrapassam a vida; amam a todos (…); são pobres e enriquecem a muitos; carecem de tudo e tem abundância de tudo (…)
(…) Em poucas palavras, assim como a alma está no corpo, assim estão os cristãos no mundo. A alma está espalhada por todas as partes do corpo, e os cristãos estão em todas as partes do mundo. A alma habita no corpo, mas não procede do corpo; os cristãos habitam no mundo, mas não são do mundo. A alma invisível está contida num corpo visível; os cristãos são vistos no mundo, mas sua religião é invisível (… …) A alma ama a carne e os membros que a odeiam; também os cristãos amam aqueles que os odeiam. A alma está contida no corpo, mas é ela que sustenta o corpo; também os cristãos estão no mundo como numa prisão, mas são eles que sustentam o mundo. A alma imortal habita em uma tenda mortal; também os cristãos habitam como estrangeiros em moradas que se corrompem, esperando a incorruptibilidade dos céus (…)
(…) De fato, como já disse, não é uma invenção humana que lhes foi transmitida, nem julgam digno observar com tanto cuidado um pensamento mortal (…)
Ao contrário, aquele que é verdadeiramente Senhor e Criador de tudo, o Deus invisível, Ele próprio fez descer do céu, para o meio dos homens, a verdade, a palavra santa e incompreensível, e a colocou em seus corações.
Fez isso, não mandando para os homens, como alguém poderia imaginar, algum dos seus servos, ou um anjo, ou algum príncipe daqueles que governam as coisas terrestres, ou algum dos que são encarregados das administrações dos céus, mas o próprio artífice e criador do universo; aquele (…) que se deve (…) observar em seu curso cotidiano.
(…) como um rei que envia seu filho.
Deus o enviou, e o enviou como homem para os homens; enviou-o para nos salvar, para conduzir, e não para impor, pois em Deus não há violência. Enviou-o para chamar, e não para obrigar; enviou-o, finalmente, para apresentar o amor, e não para julgar, e quem poderá suportar sua presença? (…)
Isso não parece obra humana. Isso pertence ao poder de Deus e prova a Sua presença (…)
Quem de todos os homens sabia o que é Deus, antes que Ele próprio se apresentasse?
Quererás aceitar os discursos vazios daqueles, que por certo são dignos de toda fé? (…)
(…) podemos afirmar que cada uma de todas as criaturas igualmente manifesta Deus (…)
(…) Nenhum homem viu, nem conheceu a Deus, mas Ele próprio se revelou a nós. Revelou-se mediante a fé, unicamente pela qual é concedido ver a Deus.
Deus, Senhor e Criador do universo, que fez todas as coisas e as estabeleceu em ordem, não só se mostrou amigo dos homens, mas também paciente. Ele sempre foi assim, continua sendo, e o será (…)
(…) Tendo concebido grande e inefável projeto, ele o comunicou somente ao Filho. Enquanto o mantinha no mistério e guardava Sua sábia vontade, parecia que não cuidava de nós, não pensava em nós. Todavia, quando, por meio de seu Filho amado, revelou e manifestou o que tinha estabelecido desde o princípio, concedeu-nos junto todas as coisas; não apenas participar de seu benefícios, mas ver e compreender coisas que nenhum de nós teria jamais esperado.
Quando Deus dispôs tudo em Si mesmo juntamente com seu Filho, no tempo passado, ele permitiu que nós, conforme a nossa vontade, nos deixássemos arrastar por nossos impulsos desordenados (…) Ele não se comprazia com os nossos pecados, mas os suportava. Também não aprovava aquele tempo de injustiça, mas preparava o tempo atual de justiça, para que nos convencêssemos de que naquele tempo, por causa de nossas obras, éramos indignos da vida, e agora, só pela bondade de Deus, somos dignos dela. Também para que ficasse claro que por nossas forças era impossível entrar no Reino de Deus, e que somente pelo Seu poder nos tornamos capazes disso.
Quando a nossa injustiça chegou ao máximo, (…) chegou o tempo que Deus estabelecera para manifestar a Sua justiça e o Seu poder (…)
Ele não nos odiou, não nos rejeitou, nem guardou ressentimento contra nós. Pelo contrário, mostrou-se paciente e nos suportou. Com, misericórdia tomou para si os nossos pecados e enviou o Seu Filho para nos resgatar; (…) o Justo pelos injustos, o Incorruptível pelos corruptíveis, o Imortal pelos mortais.
De fato, de que outro jeito poderiam ser cancelados os nossos pecados, senão com a Sua justiça?
Por meio de quem poderíamos nos tornar justos, nós, injustos e ímpios, a não ser unicamente pelo Filho de Deus? (…)
Ele antes nos mostrou a impotência de nossa natureza para se ter a vida; agora mostra-nos o salvador, capaz de nos conduzir até mesmo no que é impossível aos homens. Com essas duas atitudes, ele quis que confiássemos na Sua justiça e O considerássemos nosso sustentador, pai, mestre, conselheiro, (…) sem preocupações com a roupa e o alimento.
Se também desejas alcançar esta fé, primeiro deves obter o conhecimento do Pai.
Deus, com efeito, ama os seus filhos. Para eles criou o mundo e a eles submeteu todas as coisas que estão sobre a terra. Deu-lhes a palavra e a razão, e só a eles permitiu contemplá-lo. Formou-os à sua imagem, enviou-lhes o seu Filho unigênito, anunciou-lhes o Reino dos céus, e o dará àqueles que tiverem executado a Sua vontade.
Depois de conhecê-lo, tens idéia da Paz com que serás preenchido? Como não amarás Aquele que tanto te ama?
Amando-o, tu te tornarás a imagem de Sua justiça e bondade. Não te maravilhes de que um homem possa se tornar o reflexo da imagem de Deus. Se Deus quiser, o homem poderá (…) Então, ainda estando na terra, contemplarás porque Deus reina nos céus. Aí começarás a falar dos mistérios de Deus, amarás e compreenderás a todos, e não vais negar a Deus. Compreenderás o erro e o engano do mundo, quando realmente conheceres a vida no céu (…)
Não falo de coisas estranhas, nem busco coisas absurdas. Como discípulo, (…) transmito o que me foi entregue para aqueles que se tornaram discípulos dignos da verdade.
De fato quem foi retamente instruído e gerado pelo Verbo amável, não procura aprender com clareza o que o mesmo Verbo claramente mostrou aos seus discípulos?
O Verbo apareceu para todos, manifestando-se e falando livremente. Os incrédulos não o compreenderam e não se deixaram guiar, mas ele guiou os discípulos que julgou fiéis, e estes conheceram os mistérios do Pai.
Deus enviou o Verbo como graça, para que manifestasse Seu Reino ao mundo. Desprezado pelo povo, foi anunciado pelos apóstolos e acreditado pelos pagãos.
Com Deus desde o princípio e apareceu como novo, era antigo, agora sempre se torna novo nos corações dos fiéis. Ele é desde sempre, e hoje é reconhecido como o Filho unigênito de Deus.
Por meio dele, a Igreja se enriquece e a graça do conhecimento se multiplica, difundindo-se nos que crêem.
Essa graça inspira a sabedoria, desvela os mistérios e anuncia os tempos, alegra-se nos fiéis, entrega-se aos que a buscam, sem infringir as regras da fé nem ultrapassar os limites. Confirma-se então o respeito da lei, reconhece-se a graça dos profetas, conserva-se a fé em suas palavras, guarda-se a tradição dos apóstolos e a graça da Igreja exulta. Não contristando essa graça, saberás o que o Verbo diz por meio dos que ele quer, e quando quer.
Com efeito, quantas coisas fomos levados a vos explicar com zelo pela vontade do Verbo, que no-las inspira! Nós vos comunicamos por amor, essas mesmas coisas que nos foram reveladas.
Atendendo e ouvindo com cuidado, conhecereis que coisas Deus prepara para os que o amam com lealdade. Transformam-se em paraíso, produzindo em si mesmos uma árvore fértil e frondosa, ornados com frutos.
Com efeito, neste lugar foi plantada a árvore da sabedoria e a árvore da vida; não é a árvore da sabedoria que mata, e sim a desobediência.
Não é sem sentido a escritura que diz, que no princípio Deus plantou a árvore da sabedoria e a da Vida no meio do paraíso, indicando assim a Vida por meio da sabedoria. Contudo, por não tê-la usado de maneira pura, os primeiros homens ficaram nus por causa da sedução da serpente. De fato, não há Vida sem sabedoria, nem sabedoria segura sem a verdadeira Vida, e por isso as duas árvores foram plantadas uma perto da outra.
Compreendendo essa força e lastimando o conhecimento que se exercita sobre a vida sem a norma da verdade, o Apóstolo diz: “O conhecimento incha; o amor, porém, edifica.” De fato, quem pensa que sabe alguma coisa sem a verdadeira sabedoria, testemunhada pela Vida, não sabe nada; se deixa enganar pela serpente, não amando a Vida em Deus.
Aquele, porém, que procura a Vida com temor, planta na esperança, esperando o fruto.
Que a sabedoria seja coração para ti; a Vida seja o Verbo verdadeiramente compreendido. Plantando e cultivando a árvore dele e produzindo frutos, sempre colherás o que é agradável diante de Deus, o que a serpente não toca, nem se mistura ao engano (…)
A Salvação é mostrada, os Ensinamentos são compreendidos, a Páscoa do Senhor se faz presente, todas as Luzes se acendem (…) instruindo os que buscam a Verdade, o Verbo se torna Verdadeiro, pelo qual o Pai é Glorificado. A Ele, a Glória pelos séculos. Amém!
- Compilação de textos extraídos da carta, e que expõe a essência do verdadeiro Cristianismo primevo!
- Sobre este documento, não existem informações. Elementos que identificam a obra, tais como autor, data e local de composição, não aparecem.
De acordo com os últimos estudos, a data mais provável seria o ano 112 d.C.
Apócrifos?
Quem definiu limites para o Espírito do Senhor? (Is 40:13a)


